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Nicholas Pileggi: De repórter policial a roteirista de filmes de máfia

Jornalista participou de importantes produções de Martin Scorsese.

Ser um repórter criminal na Nova York dos anos 1950 era trabalhar em uma das editorias mais empolgantes da década. Com as disputas da máfia e a vida borbulhante do mundo do crime, sempre havia uma manchete explosiva para estampar nos jornais. Foi assim que Nicholas Pileggi começou sua imersão neste universo.

Nascido e criado no Brooklyn, Pileggi entrou no jornalismo meio que por acaso. Ele havia se formado na faculdade de Inglês para ser professor e talvez um escritor, como Ernest Hemingway. Como prática, ele lia autores renomados e datilografava romances publicados, para aprender os truques que tornavam os escritores bem-sucedidos e já ir se acostumando com o ritmo da escrita.

No entanto, ele ainda precisava de um emprego e, seguindo a dica de um amigo, buscou uma vaga na “AP”. Acreditando que fosse a rede de lojas Atlantic and Pacific, Pileggi se candidatou. Só depois ele descobriu que a vaga era para outra AP, a Associated Press, uma das maiores agências de notícia do mundo. Ele conseguiu o emprego.

As fontes de Nicholas Pileggi e a relação com Henry Hill

Como repórter criminal, ele cobriu os passos de figuras como o presidente de sindicato Jimmy Hoffa, o mafioso de Nova Jersey Tony Pro, entre outros, criando um currículo de fontes repleto de figuras do submundo de Nova York. Ele até trabalhou num prédio de imprensa que ficava do outro lado da rua da sede da polícia, dividindo espaço com outros repórteres que escreviam de lá para pegar as informações em primeira mão.

O trabalho de Pileggi se tornou tão respeitado no meio que o editor da revista New York o convidou para trabalhar com ele. Enquanto atuava na publicação, Nicholas Pileggi teve mais liberdade para trabalhar com a escola conhecida como Novo Jornalismo, que misturava a apuração das notícias com literatura. 

Foi na revista que Pileggi teve a oportunidade de entrevistar Henry Hill, o mafioso que deu origem ao livro e filme Os Bons Companheiros. Outros repórteres gabaritados foram cotados para a entrevista, mas o conhecimento aprofundado de Nicholas sobre o círculo de conhecidos de Hill foi decisivo.

A relação jornalista-fonte dos dois deu tão certo que levou Nicholas Pileggi a publicar seu livro do ponto de vista de Hill, apesar de focar em outros mafiosos, como Jimmy Burke e Thomas DeSimone. “Ele [Hill] era como um soldado de Napoleão, e se você vai escrever um livro sobre Napoleão pode ser interessante ver este mundo do ponto de vista do soldado”.

Outro ponto que chamou a atenção de Pileggi em relação a Henry Hill foi a forma articulada e detalhada com que ele narrava os acontecimentos, lembrando não apenas a quantia de determinado roubo, mas também a cor do carro que ele comprou com o dinheiro.

Ciente de que muitas das histórias contadas pelo mafioso poderiam ser inventadas ou aumentadas, Pileggi tinha uma forma muito eficiente de checar a veracidade das informações: “Tudo o que ele falava pra mim ele também falava ao FBI. E se ele mentisse – ou o FBI ou os promotores públicos descobrissem – ele seria retirado do programa de proteção de testemunhas. Ele estaria acabado. Ele voltaria à prisão, onde cerca de 1.400 mafiosos iriam querer matá-lo”.

A carreira em Hollywood

A proximidade e a riqueza de informações que Pileggi tinha da máfia foi fundamental para ele escrever seu livro do ponto de vista de Henry Hill. O romance levou menos de uma década para ganhar as telonas pelas mãos de Martin Scorsese, que encontrou no subgênero de gângsters sua marca mais conhecida até hoje.

Os Bons Companheiros figura até hoje como uma das melhores produções de todos os tempos. Estrelado por Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci, o longa foi indicado a seis Oscars®, rendendo o de Melhor Ator Coadjuvante a Pesci. Até hoje o fato do filme não ter levado a estatueta de Melhor Filme é considerado uma das maiores injustiças da história da premiação.

LEIA TAMBÉM: OS BONS COMPANHEIROS: POR DENTRO DA MENTE DE MARTIN SCORSESE

Além de ter escrito o livro, Nicholas Pileggi assinou o roteiro em parceria com o próprio Scorsese. O sucesso foi tanto que logo em seguida o diretor abordou Pileggi quanto a um novo projeto. Por coincidência, o escritor estava investigando esquemas ilegais no cassino do Hotel Stardust, em Las Vegas.

Ele entrou em contato com Frank Rosenthal, que cuidava das apostas da máfia na região. Mas Rosenthal negou qualquer tipo de participação, mesmo se fosse pago para isso.

Sem desistir da ideia, Pileggi entrou em contato com Frank Cullotta, que também havia entrado no programa de proteção de testemunhas, assim como Henry Hill. Cullotta liderava a gangue “Buraco na Parede”, que assaltava negócios e casas no sul de Nevada por meio de buracos nas paredes e nos telhados. Ele se tornou a principal fonte para que o projeto do livro fosse adiante.

Quando Scorsese aprovou o projeto para a produção do filme, foi Rosenthal que ligou pra Nicholas Pileggi, pois ele havia ouvido que Robert De Niro iria interpretá-lo. O ator foi visitar o mafioso, o que fez com que Rosenthal passasse a colaborar com a pesquisa do escritor, dando origem ao filme Cassino, também dirigido por Scorsese e roteirizado por Pileggi.

Desde então, Nicholas Pileggi se tornou um colaborador frequente de projetos para o cinema e para a TV envolvendo histórias de mafiosos. Em 2007 ele foi produtor executivo do filme O gângster, estrelado por Denzel Washington e dirigido por Ridley Scott. Seu projeto mais recente foi o filme O Irlandês, do qual foi produtor executivo. O longa reuniu Martin Scorsese com os atores Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino – que interpretou Jimmy Hoffa, que era fonte de Pileggi nos tempos de repórter. O filme foi indicado a 10 Oscars® em 2020.

LEIA TAMBÉM: DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE LIVROS E FILMES

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