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Pinóquio: O Frankenstein de madeira

Eles estão vivos! Conheça a relação entre os personagens

ATENÇÃO: O POST A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DOS LIVROS

O que um boneco de madeira e uma criatura monstruosa têm em comum? À primeira vista, Pinóquio e Frankenstein não possuem grandes semelhanças, além do fato de serem personagens literários famosos. Mas engana-se quem acha que a relação entre os dois acaba por aí.  

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: PINÓQUIO: WOOD EDITION DARKSIDE, POR CARLO COLLODI

Para começo de conversa, tanto Pinóquio quanto Frankenstein são produtos do século XIX e representam muitas de suas incertezas, desejos e questionamentos. O icônico monstro criado pela jovem Mary Shelley chegou até os leitores em 1818 sob o título Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Interessada em questões científicas e filosóficas da época, Shelley baseou-se em descobertas e experimentos recentes no campo da eletricidade, química e filosofia natural para escrever sua história sobre o cientista Victor Frankenstein, que decide criar a vida a partir da morte. 

Mais de sessenta anos depois, em 1881 na cidade de Florença, na Itália, uma outra peculiar criatura ganhou vida: Pinóquio. Diferente do Monstro de Frankenstein, o boneco que sonhava em ser um menino de verdade não era formado por pedaços de corpos humanos, mas sim esculpido a partir de um bloco de madeira. 

O italiano Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini, publicou de forma seriada entre 1881 e 1882 As Aventuras de Pinóquio: História de uma Marionete, um compilado das aventuras de um travesso (e cá entre nós, quase perverso) boneco de madeira. A narrativa de Collodi traz muito dos contos de fadas e das histórias góticas, sendo bastante diferente da versão de 1940 produzida pela Disney, a qual suavizou os contornos macabros da história e de seu protagonista. 

Pinóquio

Eles estão vivos! Eles estão vivos!

O elo que une esses dois personagens clássicos vai muito além do século em que foram produzidos. O que fala mais alto é a questão da humanidade e o princípio da vida. Tanto a existência de Pinóquio quanto a do Monstro de Frankenstein vão contra as leis naturais. Nessa lógica, ambos são seres monstruosos e antinaturais

De um lado, um boneco feito de madeira que ganha vida a partir de contornos fantásticos e inexplicáveis. De outro, um indivíduo monstruoso, um mosaico costurado a partir da morte de outros seres humanos, que nasce graças à ciência. Apesar dos meios pouco convencionais pelos quais vieram ao mundo e de seus corpos um tanto quanto estranhos, é inegável que ambos estão vivos e possuem consciência, desejos e medos. De diferentes formas, tanto Collodi quanto Shelley questionam o princípio da vida e o que caracteriza a humanidade.

LEIA TAMBÉM: MARY SHELLEY, CRIADORA DE FRANKENSTEIN, ETERNIZOU O NOSSO MEDO DO DESCONHECIDO

Pinóquio sonha em ser um menino de carne e osso. Uma criança como todas as outras. O Monstro também é uma criança. Uma criança perdida e assustada que deseja entender o mundo em que está inserida e que cobiça a aceitação e acolhimento da sociedade, mas principalmente de seu criador. 

Aqui entramos em um ponto muito importante: os criadores dessas criaturas. Um cientista e um carpinteiro. Personagens diferentes, guiados por motivos distintos, mas que tomam para si a tarefa de criar a vida e que devem arcar com as responsabilidades disso.

O criador de Pinóquio, o humilde carpinteiro Geppetto, assume prontamente a tarefa de pai. Ele não apenas esculpe o boneco a partir de um bloco de madeira, como também o ensina a andar e vende seu único casaco para lhe comprar um livro escolar. Quando Pinóquio acidentalmente queima seus pés, Geppetto prontamente constrói um novo par para ele. Apesar de todos os desaforos e traquinagens, ele sempre perdoa a marionete.

Isso não acontece com Victor Frankenstein, o cientista irresponsável que cria vida, mas não lida com as consequências de seus atos, rejeitando veementemente sua criação. Victor se nega a ensinar e guiar o Monstro. Rejeita o título de pai da criatura que eternizou seu nome na história, a abandonando à própria sorte.

Essa relação entre pai e filho salta aos olhos na obra de Mary Shelley, especialmente quando refletimos sobre a relação da autora com seus pais e com a maternidade. Sua mãe, a filósofa Mary Wollstonecraft, faleceu dez dias após dar à luz a filha, acometida de uma febre puerperal. Ela foi então criada pelo pai, o filósofo político William Godwin. Como se não bastasse a tragédia que a acompanhou desde o nascimento, Mary teve que lidar com a morte precoce de três de seus quatro filhos

O leitor interessado pode ir a fundo nas vidas de Mary Shelley e Mary Wollstonecraft, nos contextos em que viveram, seus ideais, tragédias e resistências na impactante biografia Mulheres Extraordinárias: As Criadoras e a Criatura de Charlotte Gordon, lançado pela Caveira e que compõe a coleção DarkLove.

O desenvolvimento da relação entre criador e criatura é crucial tanto para o desfecho de Frankenstein quanto o de Pinóquio. Enquanto, o fim do Monstro é triste, o do boneco é mais positivo (ainda que de originalmente morrer enforcado em uma árvore, mas vamos deixar esse detalhe mórbido para lá…).

Apesar de todas as travessuras, ao final da obra de Collodi o menino de madeira percebe a importância de ser bom, estudar, obedecer e cuidar do pai. Ao se dedicar a isso e aprender os ensinamentos que seus mentores, Geppetto e o Grilo Falante, proporcionam ao longo da história, Pinóquio se transforma em um menino de verdade. Ele não apenas ganha um corpo de carne e osso. Ele cresce enquanto pessoa e renasce

A felicidade não é alcançada pela pobre criatura de Frankenstein. Após a morte de seu criador, e das inúmeras tragédias que a antecederam, o Monstro está sozinho no mundo, atormentado por seus crimes. Encontramos o personagem uma última vez quando promete que irá morrer para que ninguém nunca saiba de sua existência. Ele termina sem nome e completamente despido da humanidade que tanto buscava. Nesse sentido, Shelley assume uma posição bastante rousseauniana: apesar de monstruosa e horrenda aos olhos de todos, a criatura era essencialmente boa, sendo corrompida por uma sociedade cruel.

Qual é a moral da história?

É interessante pensar como as duas narrativas propõem discursos morais e contêm, de diferentes maneiras, um caráter de “aviso” para seus leitores. Isso não significa, é claro, que se resumam unicamente a isso. Esta é apenas uma das variadas facetas que as obras trazem e que dialogam imensamente com a época em que foram produzidas. 

Frankenstein aborda o aspecto moral do ser humano que vai além do seu domínio e se propõe a brincar com a criação da vida. O título original Frankenstein ou o Prometeu Moderno remete justamente ao mito grego de Prometeu, o qual foi encarregado de criar os animais e os seres humanos, mas que roubou o fogo exclusivo dos deuses e o entregou aos homens, permitindo que desenvolvessem técnicas pelas quais poderiam, um dia, se transformar em divindades. Zeus obviamente não gostou nada disso e Prometeu foi acorrentado no monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia destruía seu fígado, o qual se regenerava durante a noite. 

Existe na obra de Shelley um discurso moral sobre a responsabilidade e os limites de um cientista perante seus estudos, assim como certa cautela perante as maravilhas da ciência e sua relação com a criação da vida. Aqui, vale a pena refletirmos que a sociedade em que a autora vivia era muito diferente da nossa. Sua visão mais cética e até mesmo negativa vem de um contexto de mudanças impactantes que causavam fortes inquietações. 

Universal Pictures

O século XIX presenciou o desenvolvimento de uma nova forma de sociedade, guiada por novos usos da razão, tecnologia e progresso científico, o que gerava ansiedades e incertezas em muitas pessoas. Diversos autores, como Mary Shelley em Frankenstein e Robert Louis Stevenson em O Médico e O Monstro, enfatizavam o perigo da falta ou da perda de controle nessas áreas, além de uma ciência que valorizaria o progresso custe o que custar. Mas vale ressaltar que nem todos pensavam assim! O escritor francês Júlio Verne, por exemplo, apresentou em algumas obras uma visão mais positiva que apontava a tecnologia como transformadora e benéfica para a humanidade.

As Aventuras de Pinóquio não aborda a questão da ciência e tecnologia. Mas isso não significa que a obra não estava interessada em ensinar algo ao seu leitor. Muito pelo contrário.

Ao longo das aventuras e desventuras do boneco de madeira que deseja ser uma criança de verdade, a narrativa de Carlo Collodi propõe diversos ensinamentos, como ficar atento sempre à possibilidade de desastre. Mas a principal moral que o autor deseja passar são os problemas acarretados por mau comportamento e desobediência. Isso faz bastante sentido quando relacionamos com o passado de Collodi, que antes de Pinóquio escreveu uma série de histórias didáticas infantis. Todas as desventuras do boneco são uma forma de ensinar a importância da fibra moral, das responsabilidades e do bom comportamento.

Vivos nas telas dos cinemas

Como bem sabemos, o cinema é responsável por muitas das imagens que temos de personagens literários famosos. Não é diferente com Pinóquio e com o Monstro de Frankenstein, que colecionam aparições nas grandes telas. 

Apesar de ser mais lembrado como o monstro interpretado por Boris Karloff na adaptação homônima da Universal de 1931, o Monstro apareceu pela primeira vez nas telas em 1910 em uma produção da Edison Studios. Depois disso, esteve presente no cinema em todas as décadas dos séculos XX e XXI. Seja em animações, filmes de horror ou filmes de comédia, lá está o nosso querido Frank. Sua fama é tanta que já foi interpretado por inúmeros atores famosos: Karloff, Béla Lugosi, Lon Chaney Jr., Christopher Lee e Robert De Niro são alguns dos nomes que tiveram a honra de dar vida ao monstro mais icônico da história. 

LEIA TAMBÉM: MONSTROS CLÁSSICOS DA UNIVERSAL: DOS LIVROS PARA O CINEMA

Pinóquio teve sua estreia no cinema próximo ao debute de Frankenstein, em 1911 em uma adaptação italiana dirigida por Giulio Antamoro. Após duas versões na década de 1930, chegou até a Disney em 1940 ganhando sua versão mais famosa. Entre inúmeras animações e live-actions ao longo das décadas, o boneco de madeira recebeu destaque na franquia Shrek e voltou às telas recentemente em duas produções: no live-action dirigido por Robert Zemeckis, que chegou na Disney+ agora em setembro, e no musical stop motion dirigido por Guillermo del Toro e Mark Gustafson, que estreia em dezembro na Netflix.

Pinóquio
Disney

Agora, se você gosta de um Pinóquio que abrace de vez o macabro, não pense que não existe uma versão assim! Personificando o próprio Chucky, Pinóquio – O Perverso é uma adaptação de 1996 lançada diretamente em vídeo e que traz uma versão nunca antes vista do nosso querido menino de madeira. Prepare-se para um final de cair o queixo. 

Criaturas eternas

Cada adaptação, publicação ou reedição é como um novo sopro de vida no Monstro de Frankenstein e Pinóquio. Ou melhor: são como sopros de eternidade. Eles continuam se reinventando, encantando e assustando uma nova geração de leitores e espectadores. 

Entre tantos Monstros e Pinóquios, é difícil escolher apenas um. Mas vou te contar um segredo: não existe nada melhor do que começar pela história original. E para nossa sorte, eles estão em casa aqui na DarkSide® em Frankenstein e Pinóquio: Wood Edition. Que delícia saber que nosso querido Monstro Criança e nosso pequeno Frankenstein de Madeira continuam mais vivos do que nunca e tão pertinho de nós.

Eles estão vivos! Eles estão vivos! E não vão morrer nunca.

LEIA TAMBÉM: 7 CURIOSIDADES BIZARRAS SOBRE PINÓQUIO

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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