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Duas bruxas contam como a cultura pagã foi transformada durante a pandemia

Resistência e adaptação no mundo atual

A pandemia fez com que muitos dos nossos hábitos precisassem se adaptar ao momento que vivemos, e isso inclui a forma como as pessoas buscam se conectar com seu interior. Bruxas modernas tem compartilhado suas experiências nas redes sociais e o DarkBlog convidou duas delas para contar o que mudou em suas práticas e vivências.

Entendendo a essência da bruxaria

João Silvério Trevisan, roteirista, diretor de cinema e jornalista brasileiro, faz refletir sobre como a desinformação estraçalhou essas feiticeiras em tempos remotos, quando “A inquisição não tinha piedade, era rígida, cruel e enfática, tudo isso em nome da Santa Madre Igreja, no intuito de proteger e salvar os dogmas. Contudo a Igreja e a Inquisição associavam a prática da sodomia com a bruxaria e as heresias dos cátaros e templários” (TREVISAN, 2007, p.110).

Mesmo que a inquisição brasileira tenha ocorrido muito tempo após a espanhola, a precisão dos castigos não foi tão diferente. Essas formas de opressão eram dirigidas a todos que se atreviam a ir contra a hegemonia da época. Curandeiras, cozinheiras e benzedeiras eram sufocadas pela tirania por construírem seus próprios saberes, observar o mundo com suas próprias lentes e cultivar sua cultura tradicional. 

Questões de gênero e raça reforçaram a ideia de que a bruxaria era algo a ser combatido e as bruxas antigas tiveram que se valer de muita resistência e adaptação a ambientes não tão propícios para que pudessem continuar a exercer seus conhecimentos. Ainda hoje falsas ideias sobre elas continuam sendo difundidas, dando espaço para o preconceito e invisibilização dentro da sociedade.

O mundo pandêmico e a cultura pagã

Ora tratadas como verdadeiros animais, ora como se não fizessem parte do mundo moderno, as bruxas ainda resistem e seus ensinamentos sobre criar uma conexão com o místico são compartilhados com todos que se mostrem interessados. Suas magias se direcionam para a essência natural, desconstruindo todo o estereótipo de diabólicas e temíveis. Nesse coven, usam as ervas, os óleos, chás, banhos de folha, escalda pés e os feitiços como seus aliados de luta e de resistência.

Essas mulheres que honram a tradição secular de encantos e feitiços devem ser ouvidas e sua existência deve ser, em primeiro lugar, afirmada e reconhecida. As bruxas existem no mundo contemporâneo e colocá-las como protagonistas de suas histórias e propagadoras de conhecimentos mágicos nunca foi tão importante como hoje, não apenas como forma de reparação histórica a elas, mas também como forma de respeitar uma tradição que atravessa séculos e continentes.

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Será que as bruxas contemporâneas também retiram aprendizados e sabedorias para viver no mundo pós pandemia a partir dessas ancestralidades? Quem responde a essa pergunta são Carolina e Bárbara, duas bruxas modernas que compartilham seus conhecimentos e vivências nas redes sociais.

1. Carolina 

Em primeiro lugar acredito que seja importante ampliar os sentidos do que é bruxaria. Ainda temos uma perspectiva bastante limitada sobre termos e vivências que incluem: bruxaria, feitiço e magia. Outrora, essas palavras foram usadas para perseguir, humilhar, demonizar, criminalizar, colonizar e assassinar pessoas, em vários países, inclusive no território que, hoje, chamamos de Brasil. Feitiçaria, magia, práticas ancestrais de cura, cuidado e proteção foram, por exemplo, utilizadas em nosso país, como resistência ao sistema escravista, ainda que o seu significado e entendimento vá muito além deste triste capítulo da história. É sobre esses sentidos de bruxaria, enquanto PODER e AUTONOMIA, que falamos hoje. Eu gosto de pensar que palavra é movimento, portanto, podemos subverter as lógicas dos sentidos e das definições para contar a história de outra forma.

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Na medida em que esses rituais, que podem estar ligados ao paganismo ou mesmo ao amplo escopo de vivências e saberes que nos trazem os povos afro-indígenas, trazem em si outras possibilidades de entendimento do que é corpo, natureza, ciência, saúde e vida.

Precisamos de “novas” (outras) saídas para dar conta da imensa crise sanitária, política e civilizatória que vivemos. A humanidade como conhecemos, o padrão e a referência de ser humano que erigimos, está se autodestruindo e definhando o próprio planeta.

Na pandemia, eu me aproximei ainda mais da minha porção bruxa e curandeira, me debruçando sobre a imensa literatura produzida dentro das Comunidades Tradicionais de Terreiro, e praticando a magia em casa, no cotidiano. Passei a ritualizar ainda mais meus hábitos rotineiros, trazendo o poder das folhas, das palavras, das comidas, das sementes e das raízes para perto. A gente precisa se nutrir com o melhor possível nesse momento, respeitando nosso corpo-templo. Isso também inclui lutar pelas pautas que acreditamos e defender uma sociedade mais digna e menos racista, machista, desigual e fóbica.

Bruxa boa é aquela que reivindica, coletivamente, a boa política enquanto pratica sua magia. Como uma mulher preta eu digo: nós somos complexas, diversas e não estamos dispersas! Estereótipos são limitados demais para dar conta da imensidão que dispomos. O terreiro faz ciência, promove saúde, educa e forma pessoas e faz todo tipo de terapia, com um número imenso de práticas e saberes disponíveis para nos auxiliar no bem viver.

E repito: a palavra tem força, a nossa história importa! No mais, confia na magia, o encantamento nos dá a vida! Benção e axé!

Carolina Rosa atua nos perfis @adandarasuburbana e @atarepalavraterapia no Instagram e completa sua mini biografia, afirmando ser “mulher preta, de Xangô, sustentada pela magia negra e forjada nas encruzilhadas”. Militante antirracismo e educadora, é autora do livro “O Sabá do Sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial” (Paco Editorial, 2015), que analisa a perseguição perpetrada às mulheres negras acusadas de bruxaria no Brasil colonial.”

2. Bárbara

A pandemia fez todo mundo repensar. Talvez o excesso de tempo em casa, os mesmos cômodos, os mesmos móveis, a mesma tomada quebrada, a mesma mancha na parede, os mesmos pratos, o mesmo percurso de um lugar ao outro. Por ser tudo tão igual – como nunca havíamos notado que fosse – tivemos que repensar aquilo que fazíamos do mesmo jeito e, talvez, nunca havíamos notado também. A sede pelo novo era tamanha que a mesma água não era suficiente. Sinto que nunca compramos tanta inutilidade na internet quanto nesse momento, afinal, para muita gente, a relação com o carteiro – mesmo que efêmera – era tudo que restou do mínimo de pessoalidade que sempre estivemos acostumadas.

Para mim não foi diferente. Precisei repensar tanta coisa! Repensei, revi, refiz, ressignifiquei e tudo mais que possa começar com “re” e nos leve aos novos meios de se fazer algo, eu fiz. E o principal foi com a minha espiritualidade. Adentrei os caminhos da bruxaria em 2013. Mas talvez eu tenha precisado de uma quarentena para encarar o que tanto adiei: não estava funcionando da maneira que funcionava 7 anos atrás.

LEIA TAMBÉM: AFINAL, O QUE SIGNIFICA SER UMA BRUXA NOS TEMPOS ATUAIS?

Quando vi tudo se transformando tanto, de uma hora para outra, notei imediatamente que a maneira como a bruxaria se presentifica em minha vida também precisava mudar. E o que eu fiz? Comprei trocentas coisas hahaha. Instrumentos mágicos de todos os tipos, cristais, ervas até perder de vista. Talvez tenha feito isso pois nos últimos anos estava bem ausente de minhas conexões com a bruxaria, então, acumular coisas me pareceu uma ótima solução, por algum motivo.

Mas, como eu disse, a pandemia fez todo mundo rever tanta coisa, né? Foi justamente com essa reaproximação acumulativa que percebi que não precisava de nada disso. Talvez experienciar um apocalipse tão de perto, faz a gente se conectar mais com a nossa bruxa interior, com nosso poder pessoal. E querer viver a bruxaria na sua essência, que para mim é de liberdade e desprendimento.

Hoje eu consigo ver e ouvir e sentir que a bruxaria se manifesta até em uma folha que se solta da copa de uma árvore no quintal; no vento que entra pela janela e bate no rosto, porque nesses tempos, mais que nunca, a bruxa deixa todas as janelas da casa abertas; a bruxaria está em deixar os cristais exatamente onde estão: em sua casa-terra, enquanto redescobrimos a magia da nossa própria casa.” 

A pandemia me fez olhar com outros olhos para tanta coisa e eu acredito que a bruxaria me faz olhar com outros olhos para mim mesma, para estar em minha casa, para ser bruxa. Encontrei uma utilidade para muito do que comprei, no final das contas, mas muito também saiu. Assim, gerou-se um fluxo contínuo de um movimento muito bonito: o de renovação. E sinto que é isso que a bruxaria nos ensina nesse momento de pandemia: pensar de novo, fazer de outro jeito. Perdoar, a nós mesmas principalmente, para que possamos seguir com o coração leve. E seguir aprendendo, pois isso é o que move a bruxa: o conhecimento de si mesma e do mundo ao seu redor.

Dedico este texto a duas bruxas que se encantaram nesse período: Anyky Lima & Rhany Mercês, presente!

Bárbara Macedo Ribeiro é artista plástica e atua disseminando conhecimento no perfil @barbara_macedo37, no Instagram. Se autodefine como “Zeladora dos saberes espirituais adquiridos pela vida de bruxa natural e macumbeira. Terapeuta Integrativa & Professora, trabalho auxiliando nos processos de expansão de consciência. Para isso utilizo do tarô, baralho de Maria Padilha, cura arcturiana, registros akáshicos & rituais regados à muita bruxaria.”

Retirar a bruxaria do desconhecido

Hoje, existem filmes, matérias e obras literárias que objetivam a desconstrução do preconceito. Sendo necessárias para celebrar a diversidade de opiniões, sentimentos e manifestações, Carolina Rocha definiu o poder das palavras como “movimento, portanto, podemos subverter as lógicas dos sentidos e das definições para contar a história de outra forma.

A palavra tem força mas, quando ela celebra a vida, a energia que transcende e tudo que honra a energia ancestral da nossa essência, ela se torna, além de forte, mágica.

LEIA TAMBÉM: MAGICAE: A FORÇA ETERNA DAS BRUXAS

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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