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Monstruosidade feminina no terror

Frágeis ou perigosas? Entenda a história das mulheres no gênero

08/03/2024

Desde o seu nascimento, o terror tem sido povoado por grandes monstros. Seja na literatura ou no cinema, esses personagens moldaram o gênero como o conhecemos e continuam vivos (ou mortos — dependendo do ponto de vista) até os dias atuais. Muitos deles, inclusive, surgiram nas páginas de obras clássicas como Frankenstein de Mary Shelley e Drácula de Bram Stoker. É claro que não demorou muito para essas criaturas migrarem para o cinema e transformarem o audiovisual em sua segunda casa. 

LEIA TAMBÉM: QUAL A RELAÇÃO ENTRE POBRES CRIATURAS E FRANKENSTEIN?

Ao longo de sua história cinematográfica o terror se mostrou habitado pelos mais variados tipos de monstros. Desde o lançamento das adaptações de Frankenstein e Drácula em 1931, muitos outros foram criados. Vampiros, zumbis, fantasmas e lobisomens começaram a aparecer nas telas, questionando as demarcações entre vivo e morto, humano e animal, normal e anormal. Depois dos monstros clássicos, chegou a vez dos assassinos monstruosos dos anos 1970 e 1980, como Leatherface, Freddy Krueger, Michael Myers e Jason Voorhees

No entanto, se pararmos para pensar veremos que frequentemente associamos os monstros às figuras masculinas. E quanto aos monstros femininos? Onde estão elas

Para começo de conversa, vale lembrar que mulheres sempre estiveram das mais variadas formas envolvidas com o terror. Frankenstein até pode ser um monstro masculino, mas sua criadora foi Mary Shelley, uma jovem de apenas 19 anos. Duas décadas antes de Bram Stoker escrever Drácula, tivemos a vampira Carmilla. A icônica Criatura de O Monstro da Lagoa Negra foi criada pela artista Milicent Patrick e A Noiva de Frankenstein é provavelmente um dos monstros mais amados pelos fãs.

milicent patrick

Entre criadoras e criaturas, os monstros femininos sempre estiveram no terror. De alienígenas e súcubos a vampiras e criaturas diabólicas, a monstruosidade feminina é uma pauta recorrente no cinema, mostrando que mulheres podem sim ser monstros e tudo mais o que elas quiserem ser.  

As mulheres monstruosas clássicas

Monstros femininos não são uma novidade do cinema nem da literatura de terror. Suas raízes são muito mais antigas, encontradas em práticas artísticas de séculos atrás e na própria mitologia. Basta lembrar da Medusa e de suas irmãs górgonas, por exemplo. Ou das sereias e bruxas que povoam tantas histórias famosas. 

LEIA TAMBÉM: QUEM FOI MEDUSA NA MITOLOGIA

Pensando especificamente no cinema, a monstruosidade feminina é um tema popular que atualmente engloba desde vilãs humanas a seres alienígenas complexos e adolescentes sobrenaturais. O conceito de feminino monstruoso foi desenvolvido pela teórica Barbara Creed, que o conectou a um subgênero de filmes que representam as mulheres como diferentes, transgressoras e monstruosas, frequentemente evocando medos masculinos sobre seus corpos, sua sexualidade e comportamentos. 

carrie a estranha

Nesse sentido, os monstros femininos nas telas representam dinâmicas de poder presentes na vida real, reforçando a ideia de que mulheres podem ser frágeis ou perigosas, devendo portanto ser constantemente controladas e vigiadas. O monstro feminino é pautado assim em questões de sexualidade, diferença corporal, função reprodutiva e gênero. 

Um dos primeiros exemplos de monstruosidade feminina nas telas é justamente A Noiva de Frankenstein, uma personagem sem nome que é criada como o oposto do monstro clássico, tendo toda sua identidade definida a partir de seu companheiro. Alguns outros exemplos mais clássicos incluem Lota de A Ilha das Almas Selvagens (1932), Kitty Carroll de A Mulher Invisível (1940), Irena de Sangue de Pantera (1942) e Nancy de A Mulher de 15 Metros (1958).  

noiva de frankenstein

Mulheres modernas, monstros modernos

O tempo passou, os enredos mudaram e os monstros também. Ainda assim, o cinema de terror encontrou diversas formas de representar a monstruosidade feminina. Nem sempre essas personagens precisam ser humanas, por exemplo. É o caso do Xenomorfo de Alien: O 8º Passageiro (1979). Além de ser uma alienígena perigosa, a criatura assusta pois pode procriar. Vale lembrar que uma das cenas mais assustadoras do filme é justamente a do nascimento da criatura, que explode triunfantemente do peito de um dos tripulantes da Nostromo.  

Essa associação entre maternidade, gestação, corpo e monstruosidade surgiu em diversos outros filmes de horror, comumente representando medos masculinos sobre o assunto. O útero monstruoso aparece em Os Filhos do Medo (1979) do diretor David Cronenberg por meio da personagem Nola Carveth, a menstruação como canal para o sobrenatural é vista em Carrie, a Estranha (1976) e o medo do parto e da gestação é bem representado em O Bebê de Rosemary (1968).  A maternidade também assumiu contornos monstruosos por meio de mães psicopatas e dominadoras. Basta lembrar da Senhora Bates em Psicose (1960) e de Pamela Voorhees em Sexta-Feira 13 (1980). 

o bebê de rosemary

Outras formas comuns de monstruosidade feminina podem ser vistas em personagens cuja sexualidade é bem realçada, sejam seres sobrenaturais ou não. É o caso da vampira Miriam Blaylock em Fome de Viver (1983) e das decididamente humanas Alex Forrest de Atração Fatal (1987) e Catherine Tramell de Instinto Selvagem (1992). 

Monstros incompreendidos

Em alguns casos, a mulher monstruosa se torna monstruosa por motivos de vingança. Essas personagens começam a trama inocentes e só depois de sofrerem grandes injustiças ou tragédias é que se tornam monstruosas. 

Aqui vale lembrar dos fantasmas vingativos presentes em clássicos japoneses como Sadako em Ring: O Chamado (1998) e Kayako em Ju-on: O Grito (2002). Há também o espírito da bruxa em A Bruxa de Blair (1999), por exemplo, mostrando como essas personagens podem aparecer nos mais diferentes tipos de filmes. 

ju-on

Contudo, não é apenas no cinema que esses monstros femininos incompreendidos possuem espaço. Os horrores de A Maldição da Mansão Bly, minissérie de Mike Flanagan lançada em 2020, giram muito em torno de um espírito feminino conhecido como a Senhora do Lago. Embora seja fácil categorizá-la como um mero monstro, sua história de traumas e sofrimentos revela que existem muitas mais coisas por trás de seus terríveis atos. 

Monstros ressignificados

A monstruosidade feminina nunca deixou de estar presente no cinema. Pelo contrário, atualmente ela vem sendo reapropriada e reconstruída por cineastas, roteiristas e produtoras que utilizam do conceito para narrar histórias centradas em subjetividades e identidades femininas

Filmes como O Babadook (2014) centram a monstruosidade no luto e na depressão de uma mãe viúva que tenta desesperadamente cuidar do filho. Garota Infernal (2009) e Possuída (2000) retratam adolescentes monstruosas que corporificam o horror da adolescência e assassinam os representantes de microestruturas de poder e violência. Já Raw (2016) aborda o tema do amadurecimento pela perspectiva do canibalismo. Esses exemplos mostram as infinitas formas de criar monstros femininos nas telas, representando as possibilidades surgidas a partir da intersecção entre amadurecimento, menstruação, monstruosidade, canibalismo, telecinese e transformações corporais.

garota infernal

Contudo, essas novas formas de monstruosidade não param por aí. Relíquia Macabra (2020) traz o tema do envelhecimento e do cuidado feminino, enquanto Prevenge (2016) e As Boas Maneiras (2017) ressignificam os temas da gravidez, maternidade e parto a partir de questões decididamente femininas. Enquanto isso, o premiado Titane (2021) reconstrói a monstruosidade como uma nova forma de humanidade.  

titane

Monstros familiares

O que essa breve retrospectiva mostra é que o terror sempre teve monstros femininos icônicos. Refutando a ideia de que mulheres não se misturam com o gênero, essas personagens mostram toda a complexidade da monstruosidade feminina no cinema. 

Se por um lado realmente existem monstros femininos que reduzem e desqualificam as mulheres, sendo geralmente criados a partir da visão e de medos e questões masculinas, há aqueles que representam a subjetividade e pluralidade feminina, utilizados para abordar questões como trauma, violência e medo. Cada vez mais somos presenteados com esse segundo tipo de monstro: o que assusta porque causa empatia. Esses novos monstros femininos representam raiva, morte, apetites terríveis e mudanças corporais. E causam empatia porque todos nós na plateia sentimos algo parecido ao longo de nossas vidas. 

Muitos desses novos monstros femininos entendem que ser monstro pode ser libertador. Pode ser familiar. Pode ser uma nova forma de encarar o mundo e encontrar horror e beleza nele. A grande maioria desses monstros não são vítimas nem antagonistas. São mais do que isso. São justamente como nós. 

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Sobre Gabriela Müller Larocca

Avatar photoHistoriadora e pesquisadora de cinema de horror há mais de dez anos, enfatizando a representação feminina no audiovisual e o uso do horror como fonte histórica. Produtora de conteúdo e aspirante a garota final. Nunca nega um livro da Caveirinha nem um bom filme de horror. Fala bastante e reclama muito no RdMCast.

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1 Comentário

  • Augusto Teixeira

    11 de março de 2024 às 03:35

    meu deus que pesquisa maravilhosa, lindo. A Gabi é incrível, eu amo demais o jeito como ela explica, tudo fica muito bem entendido, eu ja acompanho ela no RDM sigo no insta e amo os conteúdos. Senti falta do filme A Bruxa haha, mas enfim, perfeito! ❤️

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